O tratamento da dor crônica é ainda inadequado.

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Assistimos apesar de progressos ainda uma realidade de inúmeras pessoas sofrendo desnecessariamente por dores. Uma das razões é que o conhecimento já estabelecido que poderia se fosse aplicado proporcionar um melhor controle da dor crônica não é difundido para toda a coletividade médica. Podemos a título de exemplo citar alguns pontos que deveriam ser difundidos com o conjunto de conhecimentos que os alicerçam, talvez um pacote do tipo “DOROMA”.

Devemos defender e usar a abordagem multidisciplinar e multiprofissional, considerada aquela relacionada com os melhores resultados. Como sabemos que muitas dos profissionais envolvidos não são prescritores, precisamos contemplar a possibilidade da farmacoterapia antálgica não ser o bastante.

A anestesiologia contribuiu com um melhor controle da dor crônica quando compartilhou o conceito de anestesia balanceada e o adaptou para a farmacoterapia antálgica baseada na analgesia balanceada da polifarmácia. Na prática quando bem aplicada oferece boas taxas de resultado analgésico, porém ainda não há consenso. O emprego da polifarmácia é fonte de pavor para geriatras enquanto constitui uma realidade cotidiana para quem exerce a área de atuação em dor. Há carência de um melhor entendimento da interação dos fármacos utilizados para atingirmos a resposta analgésica adequada.

Devemos defender a adoção de uma estratégia farmacológica hierarquizada como a Escada Analgésica da Organização Mundial de Saúde que já proporcionou controle melhor do desconforto doloroso, inicialmente do associado ao câncer e depois de todos os tipos de dores. O reconhecimento do uso de classes de fármacos que poupam o uso de opiáceos e a recomendação de prescrição de pacotes de fármacos evitando e protelando o uso de opiáceos para as dores mais intensas e refratárias é muito atual, principalmente no cenário de abuso de opioides.

A neurologia contribuiu com o conceito de abuso diário de analgésicos de uso abortivo que expandiu a ideia de abuso de prescrição para os analgésicos não opiáceos. Devemos refrisar os riscos do uso de abortivos para as crises de dor que podem por exemplo transformar enxaquecas ou cefaleias do tipo tensão (que juntas são responsáveis por mais de 80% das dores de cabeça primárias) em cefaleia crônica diária.

O uso racional de analgésicos (opiáceos e não opiáceos) deve ser exercido por todos os prescritores.
A diferença de remuneração entre tratamento conservador e intervencionista induz a uma subversão da conduta que deveria ser prioritariamente menos agressiva, menos perigosa, mais barata, e mais efetiva. Um sistema de recompensa pela melhor opção centrada no doente deve ser implementado. A diferença inicialmente deve ser reduzida com a melhor remuneração do tratamento conservador uma vez que os valores referentes às intervenções já estão aviltantes.

No tratamento da dor crônica as expectativas dos doentes e de seus cuidadores amadores e profissionais devem ser submetidas à luz dos conhecimentos atuais. A meta de DOR ZERO deve ser reconhecida por todos como irrealista. Um bom resultado deve contemplar a existência de um período eventual durante o dia em que o doente pode experimentar o esquecimento do desconforto.

Devemos difundir o conceito de dor crônica como sendo a dor galgada a uma situação de doença ao invés de mero sintoma, pois nem sempre este conceito e seus desdobramentos são bem compreendidos.

Nestas poucas linhas podemos lembrar que dispomos de muitas ações para melhorar o tratamento da dor crônica. Vamos então aplicá-las.
Saudações,

José Oswaldo de Oliveira Júnior, médico, neurocirurgião, doutor, presidente atual da Sociedade Brasileira Para o Estudo da Dor e da Sociedade Brasileira de Estereotaxia de Neurocirurgia Funcional, membro da Comissão de Dor da Associação Médica Brasileira.

 

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